HISTÓRICO


    A FEIBEMO foi fundada em 17/08/1996, com sede e foro no município de Caçador, sendo uma sociedade civil, com personalidade jurídica própria, sem fins lucrativos e com duração indeterminada. É de caráter apolítico e seu quadro social é composto por Entidades Ítalo-Brasileiras. Sua abrangência territorial vai da Serra lageana ao Município de Seara entre os limites do Estado com o Rio Grande do Sul e do Paraná. Possui atualmente trinta associadas dos mais diversos municípios de sua abrangência. Expande-se com a língua italiana na rede municipal para o Oeste do Estado.
    Tem por finalidade coordenar, orientar e facilitar a operacionalização dos objetivos de suas associadas, visando ao resgate da cultura italiana e favorecer intercâmbios.
    Seus principais objetivos são o de promover a língua italiana, resgatar a cultura, a tradição, a memória e os costumes dos imigrantes italianos e introduzir novos mecanismos da cultura italiana, dentre outros.
    Cada associada da FEIBEMO promove e desenvolve anualmente um calendário de eventos com atrações específicas com intuito de cultuar e divulgar a cultura italiana trazida pelos imigrantes. A Federação incentiva e apóia essas iniciativas. Favorece também intercâmbios, através da divulgação e devidas orientações para o seu encaminhamento, em especial de estudos, promovidos por diversas Regiões da Itália.


PROJETO DE CONSTRUÇÃO DA SEDE DA FEIBEMO


Réplica "Colégio Aurora"

    A construção de uma edificação arquitetônica que represente e desenvolva a cultura dos colonizadores de toda a região de abrangência da Federação de Entidades Ítalo-Brasileiras do Meio Oeste e Planalto Catarinense - FEIBEMO, patrimônio histórico-cultural invejável, legado que necessita ser resgatado, preservado, cultuado e divulgado através de ações a serem desenvolvidas em seu interior. A escolha da edificação de um memorial recaiu na reconstituição do imponente Colégio Aurora, construído na década de 20 pelo engenheiro italiano originário de Bérgamo – Lombardia – Itália, Dante Mosconi, primeiro educandário a nível de segundo grau do interior do estado de Santa Catarina com freqüência de estudantes de toda a região sul. Inicialmente mantinha o curso Comercial que formava “Guarda-livro”, em seguida o Curso Normal e o Curso Primário, atual Paulo Schieffler.
    O município sede da FEIBEMO localiza-se a 396 Km de Florianópolis, encravado no Meio Oeste Catarinense, na Região do Vale do rio do Peixe. De colonização italiana, possui área de 974 km2 e uma população de 76 mil habitantes, segundo o último censo. Ocupa a quinta colocação na exportação e o título de maior produtor de tomate do sul do Brasil. No ramo madeireiro, um dos maiores produtores de madeira nacional.
    As primeiras famílias descendentes de italianos a se estabelecerem na região aconteceu antes do município existir, por volta do ano de 1919, provenientes do vizinho Estado do Rio Grande do Sul, trazendo consigo a vontade de trabalhar, iniciando, em princípio, na agricultura, destacando-se no plantio de trigo, milho, feijão, no cultivo das parreiras e na produção do vinho, destacando-se como grande e primeiro produtor de uvas e vinhos do estado. Em seguida dedicam-se na indústria da madeira, também neste ramo destacando-se como grandes produtores. Na época em que Brasília era construída, toda produção de madeira era vendida para edificação da nova capital do Brasil.
 


Artigo: O MONGE JOÃO MARIA DO CONTESTADO

                                                                                Palavra Livre – 17/04/2012 – Câmara Municipal de Caçador

                                                                                                                                               Ms. Aliduino Zanella

          Em peregrinação, percorreu vários países das Américas, dentre eles Venezuela, Brasil, Argentina, Peru, Cuba, México e Estados Unidos. No Brasil, tem-se registros, após desembarque na Venezuela em 1837, de sua passagem primeiramente pelo Pará e após, tendo desembarcado no Rio de Janeiro no Vapor Imperatriz, em data de 19 de agosto de 1844. Caminhava pela América a serviço da Igreja, levando a palavra de Deus de quem se dizia um enviado. Sua fervorosa fé atraíra muita gente por onde ele passava, em busca de cura e milagres. Reunia-se, às vezes, mais de 3.000 pessoas em volta do monge santo, como ocorreu aos pés do Cerro Botucaraí, nas proximidades da vila de Rio Pardo, interior do Rio Grande do Sul, motivo pelo qual foi preso em 17 de outubro de 1848. Em dezembro de 1848 foi deportado do Rio Grande do Sul e de igual forma, em maio de 1849, deportado do estado de Santa Catarina. Preso no Asilo São Cornélio e proibido de continuar suas pregações por ordem do chefe de polícia do Rio de Janeiro. Após libertado, tomou caminho incerto. Em toda essa trajetória deixou muitos vestígios, como cruzes, ermidas, oratórios... Refugiava-se nas florestas em cavernas ou grutas com boas fontes de água que os devotos acreditavam serem medicinais. Rezava, pregava o evangelho, erguia cruzes e fazia penitência. As pedras onde dormia tornavam-se pontos de adoração.   

          Em 24 de dezembro de 1844 fora registrado, como frei, em livro de estrangeiros em Sorocaba. Em Santa Catarina, região do Contestado, ficou conhecido por Monge João Maria.

          Em 16 de abril de 1869, perto do povoado de Mesilla -Território de Novo México – Estado do Arizona, não notando fogo nessa noite do dia 16, sinal previamente combinado, devido ao perigo de ataque de índios apaches, sabiam que algo de mal havia acontecido. Um grupo de homens, na manhã sucessiva, saíram ao seu encontro. Seu corpo fora encontrado debruçado em cima de um crucifixo sobre a areia de um pequeno riacho, próximo a caverna onde habitava, com um punhal cravado nas costas. Junto a ele, uma série de objetos pessoais, os quais foram recolhidos por moradores locais como: hábito, manta, rosários, crucifixos, bíblia, cajado, e também uma série de papéis, como passaportes e cartas de recomendação indicando lugares e países por onde passou, escritos em vários idiomas, autobiografia e uma fotografia com data de 1862, indicando a cidade de Nova York como local do retrato. O mais impressionante, debaixo de suas vestes encontraram um “dispositivo pontiagudo de tortura”, segundo artigo da revista italiana “La Felice”. Ainda, segundo a mesma revista, algo de terrível, para ele, teria acontecido para levar essa vida de sacrifício e de tortura. Tendo estudado na universidade para padre e ainda não ter feito os votos, pois, dizem que estava em pecados. Duas prováveis versões a respeito contam, para ter deixado a Itália no ano de 1827 a peregrinar e a levar uma vida de penitenças. Na primeira, contam que havia cedido às insinuações de uma bela encantadora. Outros contam de que havia matado um primo. Não há uma versão que possa ser comprovada.

       Seu nome verdadeiro: Giovanni Maria Agostini, nascido em 1799, na região de Piemonte Itália – o verdadeiro Monge João Maria do Contestado que hoje fazem exatamente 143 anos de seu assassinato. Sua passagem pelo Sul do Brasil deixou saudades na memória do povo e que perdura até nossos dias. (1799 -1869)         

          Para concluir, dizer que esse italiano, juntamente com os italianos Dante e Albina Mosconi - com sua grandiosíssima contribuição que deram para Caçador - soma-se aos colonizadores italianos às suas fé e religiosidade, bem como, estes últimos, desejo de haver seu pedaço de terra através de seu árduo trabalho, como lhes é peculiar em seus modos de ser e de vida.


S.O.S CULTURA LOCAL - REGIONAL
Ms. Aliduino Zanella*
 

    Globalização, segundo Johnson (1997), é um processo no qual a vida social é cada vez mais afetada por influências internacionais com origem em praticamente tudo, de laços políticos e de comércio exterior à música, estilos de vestir e meios de comunicação de massa comuns a vários países. O que seria uma sociedade cultural no século XXI, quando está ocorrendo todo um processo globalizado? Para Ramos (2003), com a globalização econômica esperava-se uma homogeneização das culturas, que seria uma ‘mistura’ entre os povos. Isto, segundo o autor, não está acontecendo na prática, ao invés das culturas se misturarem, as comunidades tentam se proteger e preservar a sua identidade cultural, pois o ser humano não consegue viver sem seus laços com o passado, com suas raízes, mostrando que ela precisa de sua identidade. A realidade em si nos mostra o contrário do que afirma Ramos, pois se percebe claramente que a tendência avança a passos largos em direção a uma hegemonia globalizada que, a seguir, tenta-se discorrer, para o qual recorre-se, com recurso, a argumentos de alguns autores que escreveram sobre o assunto.
    O fenômeno da globalização traz consigo, em seu discurso, a tentativa de se forjar um mundo homogêneo e unívoco. Nesse estágio do capitalismo que se vivencia, a globalização pretende tornar todos iguais e homogêneos, uma ‘aldeia global’, que não respeita as singularidades e especificidades locais e regionais e que não reconhece que a grande riqueza da humanidade é a sua diversidade étnico-cultural. Num mundo onde se pretende robotizar tudo, a obra de arte perde a razão e dá lugar ao produto único. Para que se consuma cada vez mais somos inconscientemente levados a cantar com a garganta de um cantor de sucesso, bailar com as pernas de outros bailarinos, e não com as que temos. Devemos ver o mundo com os olhos alheios e não com os nossos, chorar as lágrimas que não são nossas, sorrir com o sorriso que esculpiram em nosso rosto como pedra. (ROSAS, 2002).
    A globalização deseja o monólogo e exige o lucro em todas as suas atividades. Impõe a uniformização dos seres humanos, onde todos devem ser iguais, vestir igual e comer hambúrguer. Impõe normas de comportamentos, valores morais, ideologias e gostos estéticos. É importante para a globalização do lucro destruir as culturas nacionais, bem como as culturas locais, ou seja, dizimá-las a qualquer custo, nem que para isso milhares de pessoas agonizem em ‘pratos de fome’. Ao destruir suas culturas, destroem as próprias identidades.
    Coloca-se o indivíduo na frente da TV, esta como símbolo de controle, não como eletrodoméstico, para que deles se roube a subjetividade, transformando-o em coisa. Isola-se o individuo para que perca sua individualidade, e ao perder o diálogo, a alteridade, torne-se um mero ‘recipiente vazio’ sem nome.
    Na arte elimina-se o artista, aquele que cria o novo e, em contrapartida, entra em cena o técnico-artesão, aquele que produz para todos o mesmo produto. Se o artista se submete ao mercado, admite também suas leis. As leis do mercado são as leis dos mercadores, assim como a lei da selva é a lei do leão. Os produtores culturais não produzem mais arte para si mesmos, ao produzirem para os outros, a arte torna-se mercadoria, criando além do necessário, o gozo, o imediato. Como afirma Ramonet (1998), os efeitos do progresso tecnológico e as conseqüências sociológicas oriundas da globalização destruíram as estruturas espirituais seculares e provocaram a ruína de referências culturais extremamente antigas. A elevação do nível de vida, os progressos na área da saúde, a modificação da idéia de felicidade, conduziram a uma espécie de abandono dos valores. A mídia de grande audiência – em primeiro lugar cinema e rádio e, sobretudo, a televisão – difundem o modo geral de vida; a publicidade harmoniza os comportamentos, dita as compras, seleciona os objetos. Enquanto isso explodem as famílias, desfeitas pela revolução dos costumes, a liberdade sexual, aparecem ainda novos problemas relacionados ao estresse, solidão, afetividade, entre outros, dando ênfase a uma crise cultural oriunda da globalização.
    Vive-se uma nova referência de mundo. Um mundo globalizado onde o volume e a velocidade da informação circulam quase instantaneamente, acelerando o processo histórico em que as noções de tempo e espaço adquirem novos significados. O volume e a velocidade das informações em circulação afeta decisivamente o universo cultural da humanidade, produzindo mutações no comportamento dos indivíduos e das comunidades. O processo de globalização está trazendo profundas transformações para as sociedades contemporâneas. O acelerado desenvolvimento tecnológico e cultural, principalmente na área da comunicação, caracteriza uma nova etapa do capitalismo, contraditória por excelência, que coloca novos desafios para o homem neste século. Cultura, Estado, mundo do trabalho, educação, entre outros, sofrem as influências de um novo paradigma, devendo-se adequarem ao mesmo. Neste novo paradigma, a autonomia é privilegiada, tornou-se necessidade para a vida numa sociedade destradicionalizada e reflexiva. No mundo do trabalho, a autonomia é diferença que marca a mudança do predomínio do fordismo para o pós-fordismo. Já no que tange a educação, deve a mesma possibilitar o desenvolvimento desse valor, trabalhando o homem integralmente para que ele possa não só atender aos requisitos do mercado, mas também atuar como cidadão consciente de seus valores frente ao mundo globalizado. Demo (1996) diz que a degradação das identidades culturais, através dos meios de comunicação, da pressão política, da invasão de padrões externos, contribui para enfraquecer um povo, levando-o a consolidar posições de dependência e de subalternidade.
    A questão cultural no contexto internacional foi tratada na palestra Globalização e Diversidade Cultural no Mundo Contemporâneo, a primeira do Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural. O palestrante foi o presidente e diretor de Redação do periódico francês Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, que focou as consequências da globalização para a identidade cultural dos povos.Ramonet afirmou que a fase em que a sociedade se encontra atualmente é a da globalização. Mas isso não está apenas relacionado com a economia. Também existe no contexto da modernização uma extensão ao campo cultural. Somos a favor de um interconhecimento dos povos. Mas a globalização causa um custo aos símbolos culturais. Já que ninguém se opõe ao progresso, cria-se uma confusão cultural, explicou. Para exemplificar, ele citou os Estados Unidos da América (EUA), que, em sua opinião, é um dos grandes representantes do Neoliberalismo, um ideal que caracteriza tudo como mercadoria, inclusive a Cultura. Trata-se da mercantilização cultural, que representa uma grande ameaça para a identidade de cada povo, disse. Ramonet acredita que o modelo cultural dos EUA domina as artes, a informação, a mídia. Sendo assim, existe uma imposição da cultura norte-americana aos povos do mundo inteiro. Em vários lugares é visto como a cultura ocidental. As pessoas usam as mesmas roupas que eles (norte-americanos), escutam as músicas deles, vão ao cinema para assistir aos filmes que eles produzem. Esse tipo de imposição faz com que a cultura popular ou antropológica, baseada nas tradições, caia no esquecimento. Portanto, é preciso pensar nas culturas minoritárias, aquelas que, na maioria das vezes, foram a base para a formação de muitas nações, recomenda. Esse pensar nas culturas minoritárias baseada nas tradições a que se refere Ramonet, tem por objetivo a elevação e valorização de meios formativos étnicos diferentes, ou seja, o multiculturalismo que é um movimento que pode ser observado na inclusão de diversas línguas no currículo escolar e do estudo das etnias amplamente difundido nas escolas ultimamente, só para citar um exemplo.A questão e grande pergunta que se faz é se as lideranças, cientes e capazes de compreender as questões culturais querem realmente esse resgate e cultivar suas raízes e fazer a diferença, ou do contrário (infelizmente é o que vem acontecendo), todos vestem jeans, comem hambúrguer, batatas fritas, bebem coca-cola, fãs de cowtry e filmes bang-bang, só para citar algumas, em detrimento da valorização das verdadeiras origens. Mostrar e valorizar fala local e regional, hábitos alimentares, usos e costumes, valores, religiosidade, o que é peculiar de um grupo enfim, ou continua-se a ser apenas mais um povo que se deixou invadir, não resistindo ao invasor. Quando um povo tomar iniciativa de mostrar a sua cultura, não se deixar ofuscar pela elite dominante, ele crescerá e aparecerá fazendo com que a própria elite assimile e valorize ou pelo menos respeite também esse tesouro cultural, sentindo orgulho de ser caçadorense. Cultivar as origins de um grupo é dar condições para desenvolver as tradições natas, cultivadas de geração em geração, ou seja: o conjunto de características humanas que se criam e se preservam. Isto é cultura. Segundo Gandin (1998, p. 39), cultura “...é o que se faz, o que se leva em conta para esse fazer e o resultado dessa ação.” Dito de outra forma, fazem parte da cultura, pelo menos: os valores; os usos e os costumes e as normas que os mantêm; as ações e seus resultados. Assim, ciência, técnica, arte, religião e as ações e os frutos que lhes são ligados, bem como o senso comum e os resultados que ele produz, são a cultura. Cultura entendida e representada como aspectos materiais e não-materiais. A cultura material inclui tudo o que é feito, modelado ou transformado como parte da vida social coletiva, desde a preparação do alimento à produção de alta tecnologia. A cultura não-material inclui símbolos – de palavras à notação musical - , bem como as idéias que modelam e informam a vida de seres humanos em relação recíproca e os sistemas sociais dos quais participam, por exemplo: as atitudes, as crenças, os valores, as normas... A cultura não se refere ao que as pessoas fazem concretamente, mas as idéias que têm em comum sobre o que fazem e os objetos materiais que usam. O que os homens fazem é que torna visível a influência da cultura. Isto é, o poder e a autoridade da cultura na vida humana tem origem principalmente em nossa experiência, da mesma forma como algo externo a nós e que transcende o que fazemos na realidade.


A verdadeira cultura de nosso povo local e regional pede socorro!
“Um povo sem história é um povo sem identidade cultural.”

“Nós sabemos que bens culturais são portadores de valores. É a Cultura que nos permite acreditar em nossa identidade.”
Ignacio Ramonet

*Ms. Aliduino Zanella é membro do Conselho Deliberativo da recém criada Fundação de Cultura do Município de Caçador - SC.